Na várzea, a fogueira da resistência

Foi no sábado, 26/06, a celebração da resistência frente a uma batalha que está unindo comunidades, movimentos, artistas, militantes, homens, mulheres e crianças da periferia de uma cidade a beira de um ataque de nervos. Toda a cidade tem sofrido com a política da megalomania e, em específico, a zona-leste sofre e sofrerá por um bom tempo a pressão da máquina pública em favor do desenvolvimento contra a resistência popular em manter suas raízes, direitos e relações comunitárias fortalecidas em uma história errante, que fundou vilas, bairros, distritos e, quiçá, todo este lado esquecido de São Paulo, o fundão, a zona-leste nordestina, operária da várzea, longe da Mooca, muito, mas muito, além do Tatuapé.

Pôr do sol na beira do Tietê - Vila ItaimO que se viu foi um pôr do sol maravilhoso, seguido de uma lua luminosa, a beira de um Tietê morto, contrariado protagonista de um enredo de estupro a natureza na maior metrópole brasileira. Foi na chácara do Seu Agripino, um belo tanto de terra de mata atlântica preservada, a beira de um rio assoreado de beleza estranha, que aconteceu a Festa Junina da Várzea – a primeira e, talvez, ultima, caso o Governo leve adiante o projeto do Via Parque, anunciado como maior parque linear do mundo. Unidos, os movimentos da várzea, e também de fora dela, demonstraram força em reunir e chamar para a luta sem perder na festa a possibilidade de agregar, sorrir junto, fincar os pés no chão do terreiro para cirandar, tomar quentão, comer milho verde, fechar no jongo a fala e a dança da resistência do quilombo em tempos de agora. Como os índios Guaianazes que quebraram a cruz de Anchieta e deram nome a vila próxima, a Curuçá (que significa Cruz Quebrada em tupi), a gana de não ceder a uma ação infundada dos poderes possíveis de serem simbolizados por tratores demolidores de casas e de costumes, o que foi visto e vivido nesta noite de São João menino foram pessoas embuídas de todos os santos evocando a resistência, a permanência e a justiça. 

 Preparação do pau de seboA criançada tomou conta do pau de sebo

A festa foi organizada por diversos movimentos ( Movimento Popoular Pelos Direitos Dos Moradores Das Margens Do Tietê e Por Justiça No Processo De Desapropriação, OPA, Espaço Cultural Mané Garrincha, Rede Livre Leste, Movimento Humanista e Terra Livre), além de toda a comunidade da Vila Itaim e Jd Romano. Apresentações de circo, dança e teatro foram mescladas com falas que traziam a tona a discussão sobre a questão da várzea.

 

O Balaio chamou a comunidade com pernas-de-pau, monociclo e um bom arrastapé tocado na sanfona. Depois apresentou a tradicional esquete de palhaços “O Apito”, cujo roteiro traz uma autoridade que proibe os palhaços de tocar – uma temática bem propícia ao que estamos vivendo na cidade. O grupo Arruacirco levou ao terreiro as manifestações populares Maracatu, Boi, Cacuriá, Coco, Jongo e juntou-se ao Balaio para a já tradicional ciranda sempre puxada pelos dois grupos. Esse momento foi o ponto alto da festa, com toda a comunidade de mãos dadas, ecoando a ciranda ao som de acordeon, caixa e alfaias. O grupo Cia do Outro Eu cruzou a zona-leste (de São Mateus ao Itaim Paulista) para somar e levou o criativo “Imeio Elegante”, divertindo a todos com os recados apaixonados. O grupo da terceira idade de uma associação local levou danças e cenas que, aos gritos de “mais um”, lançado pelas crianças, precisou repetir suas apresentações. A ótima seleção de músicas que resgatavam nossas raízes caipiras e nordestinas ficou por conta do Espaço Cultural Mané Garrincha e as barraquinhas dos comes e bebes (deliciosos!) ficaram por conta da comunidade e outros movimentos.

   

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A próxima ação na várzea está marcada para o dia 04 de julho, domingo, e será um cortejo, o 4º Cortejo Livre Leste, seguido pela projeção de rua do vídeo denúncia produzido pelo Livre Leste no dia do aniversário da cidade de São Paulo, um dos piores da grande enchente (causada pelo fechamento das barragens da Penha, a mando do Governo) no início do ano.

O Balaio está nessa! Sempre!

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2 Respostas

  1. balaio

    de soslaio,
    olhar embaralhado por balaio,
    esse aí,
    que canta e requebra
    marcado por grito
    por canto de guerra
    na guerra precisa
    da gente sofrida
    do rio que agoniza,
    no passo e compasso da vida
    esse balaio,
    cuja guerra só começou.
    carone

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